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Cultura e arte a favor da paz

Publicado por admin - Wednesday, 20 March 2013

"Se Deus vos socorre, ninguém poderá vos vencer" (Alcorão, 3), arte de Moafak Dib Helaihel

ORIENTE

Festival valoriza manifestações da cultura árabe e estimula o público a conhecer melhor uma das comunidades mais presentes na vida brasileira, embora ainda envolta em estereótipos

PAULO HEBMÜLLER

Mais de 150 ações, entre palestras, debates, exposições, espetáculos e outras atividades realizadas em 12 cidades de cinco países. Os números são eloquentes em se tratando da programação do 4º Festival Sul-Americano de Cultura Árabe (4º Saca), que será aberto nesta segunda-feira, dia 18, e se estende até o dia 31 de março. São números que refletem uma comunidade de cerca de 16 milhões de árabes e descendentes no Brasil, cuja presença se manifesta em campos como economia, política, artes, culinária, cultura e na comunicação do dia a dia. Palavras como açúcar, algodão, arroz, café, elixir, garrafa e xarope vêm do árabe, a terceira língua de maior contribuição ao léxico do português, atrás apenas do latim e do grego.

"Amor e paz", arte de Moafak Dib Helaihel

“Um dos objetivos do festival é chamar a atenção para a cultura árabe, que está intimamente ligada às culturas africana e sul-americana, e desconstruir estereótipos”, diz o professor Paulo Daniel Farah, docente do Departamento de Letras Orientais da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Farah é também diretor da Biblioteca e Centro de Pesquisa América do Sul-Países Árabes (Bibliaspa), organizadora do festival. O Itamaraty, a Organização das Nações Unidas para a Educação, as Ciências e a Cultura (Unesco) e vários órgãos estaduais e municipais das cidades envolvidas são parceiras ou apoiadoras no evento.

Abóbada da Mesquita Azul, na Turquia

Uma das visões recorrentes no imaginário ocidental, cita Farah, é que a cultura árabe teria vivido um apogeu – especialmente na época da ocupação da Península Ibérica, entre 711 e 1492 –, mas depois teria “parado no tempo”. “É uma cultura que se adaptou bem à contemporaneidade e tem manifestações modernas muito significativas”, contesta o professor. Exemplos dessas manifestações estarão presentes nas cidades que integram a programação do festival, que inclui, além de São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Brasília, Buenos Aires (Argentina), Rivera (Uruguai), Beirute (Líbano) e Fez (Marrocos), entre outras.

Oficina com o ator Yunes Chami

A escolha da data para a realização do 4º Saca não veio por acaso. O calendário do festival inclui o dia 25 de março, decretado Dia da Comunidade Árabe, em homenagem à criação da famosa rua que recebe diariamente milhares e milhares de consumidores na região central de São Paulo. Criada em 1859, a rua 25 de Março está intrinsecamente ligada à imigração árabe no Estado: em suas origens, ela congregava sírios, libaneses, palestinos, iraquianos, egípcios e jordanianos, entre outros, que ali estabeleceram seus pontos de comércio.

 

 

 

Uma aula com Ibrahim Almaghribi: língua, literatura e cultura árabe para todos os interessados

 

 

Diálogo – A organização de debates, a publicação de livros e a promoção de eventos como diálogos entre representantes de diversas religiões estão entre os focos da Bibliaspa para procurar responder também aos estereótipos que associam o islamismo à pregação ou à defesa da violência. “A própria palavra islã tem a mesma raiz da palavra salam, que significa paz”, diz Farah. Para o professor, há grupos minoritários que, de fato, exploram a violência como caminho válido na busca de seus objetivos, mas esses grupos existem entre adeptos de qualquer religião.
“As dificuldades políticas são interpretadas como conflitos religiosos. Ressalta-se essa ideia essencializante para que não se discutam os temas em si, o que obrigaria a observar outros aspectos políticos, econômicos, históricos etc.”, considera o docente. Um dos esforços da entidade é a tentativa de suprir a carência de publicações especializadas e oferecer uma bibliografia que permita que o público brasileiro saiba o que autores árabes e muçulmanos têm a dizer a respeito desses temas.

Mesquita em São Bernardo do Campo: religião de amor e misericórdia

A argumentação de Farah ecoa, por sinal, o que defende Shirin Ebadi, advogada iraniana e Prêmio Nobel da Paz de 2003, exilada na Inglaterra desde 2009. Na conferência do ciclo Fronteiras do Pensamento que proferiu em 2011 em São Paulo, Shirin afirmou que a discriminação não escolhe religião “e não é específica dos países islâmicos”. “O Islã, como qualquer ideologia, tem interpretações diferentes”, disse. No caso das leis que restringem os direitos das mulheres, seu fundamento é “a cultura patriarcal e machista, que faz uma interpretação da religião contra a mulher” – o que também pode ocorrer em qualquer latitude, salientou a ativista pelos direitos humanos.

Muitas histórias –
 Uma das exposições do 4º Saca é resultado da viagem de alunos do Programa de Língua e Cultura Árabe mantido pela Bibliaspa (leia o texto ao lado). No ano passado, o grupo participou de oficinas de vídeo e fotografia ministradas por profissionais da National Geographic em Doha, no Catar. Os trabalhos produzidos fazem parte da montagem “Tradição e modernidade: um mundo, muitas histórias”, que pode ser visitada até o final do festival na Biblioteca Monteiro Lobato (rua General Jardim, 485, no Centro).

"Ele cria o que não abeis" (Alcorão, 16), arte de Moafak Dib Helaihel

Em frente à biblioteca também haverá, no dia 27 de março, uma série de atividades ligadas à defesa que a Bibliaspa, em conjunto com outras organizações, faz da necessidade da criação de um Plano Municipal do Livro e da Leitura. A programação inclui declamação de poemas, contação de histórias, debates e lançamento de livros. Exercícios de caligrafia árabe – cujos estilos incluem sofisticados recursos artísticos – sempre despertam atenção e também fazem parte do calendário.
Farah e outros professores e egressos da USP estarão em várias atividades da quarta edição do festival. O docente da FFLCH e o historiador Gabriel Mathias Soares, mestre em Estudos Judaicos e Árabes pela USP e pesquisador da Bibliaspa, farão palestra sobre os contextos da imigração árabe para o Brasil (no dia 27 de março, na Universidade Metodista de São Paulo, em São Bernardo do Campo).

"O futuro pertence àqueles que acreditam na beleza de seus sonhos", arte de Moafak Dib Helaihel

No mesmo dia, Francirosy Campos Barbosa Ferreira, professora do Departamento de Psicologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, comanda um diálogo sobre o uso do hijab, o véu islâmico, sob a perspectiva do empoderamento, da identidade e da religiosidade de mulheres muçulmanas (às 21h20, na sede da Bibliaspa). No dia 28, Rogério de Campos, historiador e doutor em Filosofia Antiga pela USP, fala sobre a ciência entre os filósofos pré-socráticos (às 19h30min, na Bibliaspa). Egressos da USP participam ainda de outras atividades. Quase toda a programação tem entrada franca.

A programação completa do 4º Festival Sul-Americano de Cultura Árabe pode ser consultada no endereço eletrônico http://festivaldaculturaarabe.wordpress.com, no Facebook (www.facebook.com/festivaldaculturaarabe) e no Twitter (twitter.com/festivalsaca). A sede da Bibliaspa em São Paulo fica na rua Baronesa de Itu, 639, telefone (11) 3661-0904.

A serviço da pesquisa e da integração

A quarta edição do Festival Sul-Americano de Cultura Árabe comemora os dez anos de criação da Biblioteca e Centro de Pesquisa América do Sul-Países Árabes (Bibliaspa), fundada em 2003 com o objetivo de promover reflexão crítica sobre temáticas árabes, africanas e sul-americanas por meio de ações estratégicas como publicação de livros, realização de congressos e seminários e promoção de eventos culturais. Boa parte das atividades da Bibliaspa tem apoio da Unesco, o órgão das Nações Unidas para a educação, a ciência e a cultura. A ampliação da rede de pesquisadores e artistas formada pela entidade ao longo da década permite a diversificação e o maior alcance das atividades do festival.
Entre os serviços que presta, a Bibliaspa recebe demandas de várias associações comunitárias e culturais de descendentes de imigrantes de países árabes que procuram apoio para pesquisas históricas, restauração de documentos ou assessoria na realização de atividades culturais. O professor Paulo Daniel Farah registra que a preocupação com as origens e as raízes históricas costuma se manifestar especialmente nos descendentes de terceira geração. A razão, explica o professor, é que as primeiras gerações se mostram mais preocupadas com a necessidade de se autoafirmar no país de acolhida.

O professor Paulo Daniel Farah: contra estereótipos

Mas a entidade não se restringe a trabalhar com o público de origem árabe. Entre suas principais preocupações está a de valorizar a diversidade e promover o diálogo. Uma das atividades em que essa ênfase mais transparece é o Programa de Língua e Cultura Árabe, que neste semestre tem cerca de 120 alunos matriculados nas turmas dos diversos níveis. De acordo com Farah, em três meses de curso – cujo material didático é produzido pela própria Bibliaspa – o aluno já está lendo bem em árabe.
Os cursos são gratuitos para jovens em idade escolar. Adultos pagam uma taxa semestral cujo valor equivale à mensalidade de algumas das escolas de línguas do mercado. Os estudantes que se destacam participam de uma viagem de cerca de 15 dias por países árabes. O roteiro varia a cada edição, mas sempre inclui visitas a escolas, universidades, museus, centros de pesquisa e cultura, templos etc. As despesas da viagem são financiadas pela própria entidade, por meio de parcerias.
Quem visitar a sede da entidade, num belo casarão remanescente da década de 1930 na confluência dos tradicionais bairros de Higienópolis e Santa Cecília, pode conhecer o enorme painel que ocupa quase a totalidade de um dos muros do imóvel e expressa a preocupação com os temas aos quais a Bibliaspa se dedica. Um grupo de sete grafiteiros do Jardim Ângela participou de oficinas e cursos durante um ano e meio para construir as ideias do painel. Monumentos, fauna e nomes das culturas árabe, latino-americana e africana – como os escritores Machado de Assis, Gabriel García Márquez e Naguib Mahfouz – estão representados no trabalho, que foi inaugurado em março de 2011 numa comemoração com a presença do ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota.

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